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"Nunca me envolvi com prostituição" afirma Renata Peron

  • Nov 13, 2017
  • 9 min read

Entrevistada: Renata Peron

A Paraíbana é presidente da CAIS-Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexauais. Data da entrevista: 20 de Outubro de 2017.

Horário: 15:52

Local: Praça Roosevelt, São Paulo.

Militante há cerca de 20 anos, presidente da CAIS (Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais) e recepcionista na SP Escola de Teatro. “A, oriunda da Paraíba e mulher trans, Renata Peron concedeu à equipe do Transmanual uma entrevista exclusiva falando sobre sua vida, tanto pessoal quanto a profissional. Quebrou estereótipo de que todo transexual se envolve com prostituição e falou abertamente sobre seu dia-a-dia.

"Morei muitos anos em Juazeiro da Bahia e vim tentar a vida artística aqui em São Paulo"

Começando a entrevista bem animada com a nossa equipe, Renata já se abriu falando sobre si, sua origem e porque veio para capital paulistana. "Oi pessoas, eu sou Renata Peron. Presidente da ONG CAIS, que é o Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais. Eu sou militante do movimento há quase 20 anos, eu moro aqui em São Paulo mas eu sou paraibana. Vivi muitos anos em Juazeiro da Bahia e agora, há 12 anos eu vim pra cá, porque eu sou artista também, sou cantora de música popular brasileira e vim tentar a vida artística aqui."

Infelizmente, a taxa de agressão ao público LGBT no Brasil não é pequena e Renata falou um pouco de sua experiência com agressões. "Quando eu cheguei aqui, eu fui agredida por nove caras lá na Praça da República, em 2007, o golpe resultou na perda de um dos rins de Renata, 15 dias de internação e um trauma psicológico. “Foi ai que me tornei uma militante da causa LGBT."

“Foi muito turbulento e perturbador. Você se questiona o tempo inteiro: como alguém é capaz de ter tanto ódio contra outra pessoa?”.

Logo depois do relato inicial, Renata mostrou satisfação em estar com a nossa equipe e permitiu que fossem feitas qualquer tipo de pergunta "O que quiserem perguntar, fiquem à vontade", disse simpática.

"A CAIS nasceu mais para fiscalizar e pedir ação do estado, que pudesse olhar com mais carinho para nossa comunidade (...) O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais"

Perguntamos o que a motivou na criação da CAIS e abertamente ela respondeu, "Depois dessa agressão que eu sofri em 2007, eu fui negligenciada pelo estado duas vezes: uma na área da saúde e outra na área jurídica, eu percebi que a gente, os órgão que existiam, não tinha alguém que fiscalizasse, então a CAIS nasceu mais para fiscalizar e pedir ação do estado, que pudesse olhar com mais carinho para nossa comunidade. Não sei se vocês sabem, mas o Brasil é o país mais mata travestis e transexuais no mundo. Em São Paulo não foge essa regra, é muito assassinato, é muita violência, o estado negligencia, então eu acho que a CAIS nasceu mais para isso, 'pra' gente cobrar do governo público iniciativas que fossem tomadas e reais para nossa comunidade."

"Eu sempre fui trans, mas tinha medo. Desde sempre as pessoas viam uma mulher em mim, tanto que, quando eu cantava de homem, as pessoas riam e, quando eu cantava de Renata, as pessoas aplaudiam. No início, falei que era drag por achar que seria mais lúdico, que sofreria menos preconceito e que daria mais certo. Fui experimentando, vendo quais elementos chamariam mais atenção, mas vi que não fazia diferença"

Renata também comparou como é a luta LGBT em solo brasileiro em relação a outros países, dizendo que aqui no Brasil tem uma ação que avança mas logo retroage, ou seja, ela avança quando o estado cria algum mecanismo de defesa que aqui em Sâo Paulo é a Lei 2948, porém é uma lei estadual e não federal. Ela retroage por falta de investimento nessa lei, mas quer que as pessoas saibam que essa lei existe, já que só quem é do próprio movimento tem conhecimento dessa lei, sem políticas de divulgação. "A gente tá bem atrasado comparado a outros países, por exemplo, na Argentina já existe uma lei, que é a lei de identidade de gênero, que você pode ir em um cartório fazer a sua mudança."

No Brasil, nós não temos nem a lei de identidade de gênero e nem a lei que criminalize a homolesbotransfobia." completou a militante, que também deu um pequeno parecer sobre movimentos feministas que também apoiam a causa LGBT, bem como os movimentos feministas que não apoiam, que acham que apenas as mulher biológicas devem participar dos movimentos feministas, tornando-se um conflito interno do próprio estado. "Fora do país, nos países de primeiro mundo, eles entendem que mulher está na construção dela, então não importa se é biológica ou se não é biológica, a identidade dela que diz quem ela é, então a gente tá bem atrasado comparado a outros países."

Nossa equipe perguntou sua opinião sobre o nome social nas escolas, faculdades, trabalho e sua resposta foi clara, "Ele é essencial porque não temos uma lei de identidade de gênero, então a gente no Brasil, a Berenice Bento fala muito sobre isso, que a gente cria gambiarras legais. Nome social nada mais é que uma gambiarra legal, porque não é uma lei, se não é lei não tem como ser obedecida, é mais pela sensibilidade que a gente tem decretos e resoluções pra sensibilizar as repartições públicas, mas se instituições particulares quiserem, não são obrigadas porque não é lei."

O certo seria a gente ter a aprovação da Lei João W Nery, que é uma lei no senado que foi apresentada pelo deputado Jean Wyllys e essa lei ainda não foi aprovada, infelizmente, então eu acho que esses deslizes do estado de não aprovar uma lei que não vai fazer mal a um heterossexual, a gente percebe que é um país ainda muito preconceituoso, muito religioso, a religiosidade atrapalha muito porque por ser um país laico você não deveria misturar religião com democracia, e aqui é mais a democracia em baixo e a religão em cima, então a gente perde muito porque não tem essa clareza e eu 'tô' falando da população que vai ser levada por um grupo de pastores, pessoas extremamente preconceituosas que querem implantar na cabeça que o que é certo é o que ele escolheu pra vida dele, então se você é hétero e eu não sou, eu tenho menos direito do que você, essa é a ideia que o estado quer implantar quando aceita deputados como esse que nós temos aí hoje.

"Eu vou continuar minha fala e eles que se virem" respondeu divertida e mostrando descontração quando houve uma pequena

falha da nossa equipe durante a filmagem, mas sugeriu até mesmo o que fazer quando acontecesse algum problema em um dos equipamentos "Qualquer coisa vocês cortam, mas repete a pergunta, que eu respondo novamente" respondeu compreensiva e brincou, "Vocês precisam fazer uma 'vaquinha' e comprar um tripé".

"É uma experiência dolorosa, porque pra conseguir entrar com a ação, você precisava fazer um tratamento psicológico de 2 anos para te darem o laudo CID10, que é o laudo para transtorno de identidade e de gênero, aí a partir desse documento você tem que comprovar com os seus amigos com cartas dizendo que você se reconhece como aquela pessoa, você tem que entrar com essa ação na defensoria pública, espera entre 1 e 2 anos para que o juíz avalie, pois depende da avaliação dele, ou seja, se ele ou ela achar que a pessoa não é trans, por qualquer motivo que possa pensar, você não tem os seus documentos."

Foi assim que ela começou a responder quando nossa equipe perguntou para como ela fez para conseguir seu nome civil e que, felizmente, no seu caso ela teve sorte, pois o juíz avaliou, viu que ela de fato tinha o "transtorno" e lhe deu a autorização. Hoje em dia, Renata Peron tem toda documentação de mulher, "Eu sou Renata de Moraes Pessoa, conhecia como Renata Peron, mas no RG você muda apenas o nome, não muda o sobrenome. Hoje o STF aprovou uma lei que você não precisa mais passar por um processo psíquico, terapia de 2 anos e etc para poder tirar a documentação, mas ainda sim precisa da aprovação do juíz."

Tem uns avanços, não vou negar, há 20 anos não se falava de transexualidade, mas hoje vemos em novelas, cinema, teatros. Eu sou funcionária desse espaço, SP Escola de Teatro, que apoia travestis e transexuais pro mercado de trabalho, então assim, a gente percebe que as coisas estão avançando. Agora, o que diz respeito ao estado, o que a nossa culpa que eu acho é que a gente não consegue ter consciência que temos que ter representantes nossos lá.

"Por que os evangélicos ganham todas? Porque eles brigando ou se matando, eles estão unidos contra nós e nós não temos gente lá, a não ser o Jean Wyllys, mas se são 500 e tantos deputados e só existe um (que apoia a causa) não tem como, a gente tinha que ter no mínimo 10% dos 500 pra fazer barulhos, então a comunidade LGBT precisa aprender de uma vez por todas que se não tiver representatividade no congresso, esses avanços vão retroagir todos, porque se ano que vem tiver o dobro do que já tem de deputados e senadores evangélicos, já era pra gente." finalizou a militante.

"Nunca me envolvi com prostituição, nunca andei com pessoas erradas, nunca fui presa, nunca mexi com o tráfigo, sempre trabalhei dentro de coisas muito corretas."

"Eu sofri muito, por que, a igreja não me aceitava, as familias não me aceitavam,eu tinha que pedir, que me humilhar na casas, para eu lavar roupa, para eu fazer faxina na casa, para eu vender produtos de beleza, para não cair na marginalidade, quando eu digo isso, claro que eu não condeno as meninas que foram para a marginalidade e que foram para a prostituição" afirma Renata ao comentar sobre o ciclo de linha de uma travesti, já que assim como ela muitos jovens trans saem ou são espulsos de casa por não serem aceitos pelos familiares justamente por serem "diferentes".

Esses mesmo jovens não tem nem o apoio da igreja, já que em grande parte são condenados por ela, e que o estado não entende que uma coisa é a religião e outra é a seguridade do cidadão, que por se misturar com a igreja o estado também acaba negligenciando esses mesmos jovens, ela afirma que o estado, a familia e a igreja não oferecem a base para um(a) joven trans sobreviver.

"Existe cidadania em um ser como eu"

"Eu posso ser uma mulher que curto mulheres e curto homens e nasci do sexo masculino, porém eu não me vejo como homen, me vejo como mulher e isso é Indentidade de Genêro.

"Eu sou mulhuer nasci mulher num corpo masculino e eu fui me adequando o quanto eu pude e o quanto dava para mim, eu não quero que ninguém olhe para mim com dó, eu não estou doente" acrescentou.

"Orientação Sexual é para quem eu olho, com quem eu me relaciono, se eu olho para homem, se eu olho para mulher ou se olho para os dois ou até mesmo para nenhum dos dois." respondeu Renata ao ser questionada por nossa equipe sobre o o fato de falarmos tanto sobre a identidade de genêro de pessoas trans e tão pouco sobre a Orientação Sexual delas.

"Eu nunca injetei cilicone indústrial em meu corpo, não por que eu não tivesse a necessidade disso, por que eu queria transformar meu corpo mas eu tinha muito medo pelo que eu vi e pelo que eu ouvi de varias amigas que injetaram cilicone e ele regeitou e que foi um sofrimento muito grande para elas e eu vi que isso não valeria a pena", relatou sobre determinado momento em sua vida antes de ter condições de fazer qualquer tipo de cirugia estética.

Falando um pouco sobre a esposição LGBT na midia:

"O que a Gloria Perez fez com essa novela foi plantar uma semente no coração das pessoas para daqui 5 ou 10 anos elas começarem a trabalhar o ódio e descostruir esse ódio." comenta Renata ao opinar sobre a novela da globo "A força do Querer", ela afirmar que o lado positivo da novela foi muito maior do que qualquer critica negativa ou equivocos cometidos que poderiam ser apontados no momento, comenta também sobre entender que a rede Globo é uma empresa de mercado, que quer vender e que busca assuntos que rendam algúm tipo de discução, que acredita que o tema pode ficar em alta apenas até surgir um assunto mais polêmico, "só está agora em alta por que está nas novelas, por que está no cinema" mas que ainda assim, a trama foi super consciente em todos os seus aspectos, sendo eles positivos ou negativos.

Também deixou clara sua opnião, inclusive, sobre a aclamação de Pablo Vittar na mídia, lembrando que a artista é uma drag queen e não uma mulher trans ao contrário do que muitos acreditam, ela revelou que acha inclusive maravilhosa a aparição da cantora como representatividade do movimento queer para a sociedade.

Sempre muito irreverente não deixou de fazer uma comparação com a carreira de Pablo, que não é uma exceção e a de tantas outras artistas LGBTs que não tem tanta estruta ou apoio da indústria e acabam perdidas no esquecimento público, colocando a sí mesma como exempo.

Renata também nos contou um pouco sobre a sua carreira como cantora e atriz; que apesar de já ter 4 cd's gravados ela ainda não tem uma gravadora e que além de fazer shows, cobrir eventos desde festas de aniversário até casamentos; esta gravando músicas inéditas e planeja lançá-las no youtube e no facebook no próximo ano, 2018, em busca de dar um up na carreira almejando reconhecimento Nacional.

Poderia alguém pensar que, na área artística, seria diferente, mas a ideia não se torna real, quando se é trans, você precisa ter uma bagagem três vezes maior.

- Vídeo da Entrevista Perfil Completo:

Ela finalizou a entrevista com um relato pesoal "Tenha mais amor, menos ódio no coração que vocês vão ver que a vida vai ficar bem melhor"

"O amor vence o ódio"

Texto: Natália Cristina e Verônica Torrealba.

Vídeo: Nathan Bandeira

Edição de fotos/video: Thayná Fuzinato

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