“Se não foi fácil para mim, não vai ser fácil para ninguém. ”
- Nov 25, 2017
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A entrevistada de hoje é Jocasta Barros, auxiliar de enfermagem, 48 anos, que falará um pouco sobre Transexualidade e como foi sua transição.
Ela conversou com o repórter Fernando Welington onde a mesma abriu sua casa para uma conversa, onde contou um pouco sobre sua história, sobre suas dificuldades e realizações.

QUANDO FOI QUE SE DESCOBRIU MULHER?
“Eu sempre fui gay! Me assumi desde os quinze anos, na mesma época consegui me hormonizar, porém para me tornar mulher foi difícil, só me senti mulher quando descobri a mudança de sexo porque até então estava satisfeita como travesti com a evolução da tecnologia, ciência e politicas publicas LGBT’S. O primeiro passo foi a mudança de nome que já fazem seis anos que não foi burocrático e a mudança de sexo a menos de um ano. ”
VOCÊ TEVE APOIO DA FAMÍLIA?
“Sempre tive apoio em todos os aspectos, mas sobre a mudança de sexo não consultei ninguém, essa transição foi uma construção e decisão minha e o último passo foi a cirurgia. Os procedimentos começaram a ser feitos há 8 anos. Devido a não passar em alguns exames prés cirúrgicos tive que emagrecer 10 quilos, constou (diabete) muito alta; só avisei minha irmã e minha amiga de longa data sobre o procedimento. Minha Família toda só soube no dia seguinte pós-cirurgia.
Ao decorrer da entrevista abre o campo da sua vida sexual, não ativa ainda devido o procedimento ter pouco tempo, Jocasta fala principalmente em algumas dificuldades que encontra para se relacionar, que ainda existe um certo tipo de preconceito sobre a troca de sexo e enfatiza: “Não quero ser rotulada. ”
DE ONDE VEIO O NOME JOCASTA?
“Em 1989, eu já era assumidamente gay e aos 17 anos fui trabalhar na Nitro Química (oportunidade de emprego que não dão para qualquer gay afeminada) lá me chamavam de minha deusa, e na época tinha a novela MANDALA e nela tinha Jocasta a personagem que se apaixonou-se pelo filho foi daí que saio o nome. ”
Complementa ainda: ‘’Esse nome tem historia de um apelido Jô minha deusa adorei e ainda adoro o nome. ’’
VOCÊ SE INSPIRA EM ALGUMA PESSOA TRANS FAMOSA?
“Não tenho inspiração em nenhuma, acho até bonito a maneira que elas esclarecem as situações bate com o meu perfil somos todos iguais, porém elas têm a mídia para favorecer elas, eu só vou aparecer na televisão se for no ‘Datena’ porque matei alguém. Não me baseio em ninguém só em mim mesma. ”
VOCÊ ACREDITA QUE SERVE DE INSPIRAÇÃO PARA ALGUÉM?
“Não! Porque cada um tem que ter o seu querer, nunca me inspirei em ninguém. ”
A essa altura ela nos conta que teve uma amiga onde às duas passaram juntas pela transição, mesmo com a dificuldade na convivência por residirem em bairros diferentes, (na época ambas com 15 anos) começaram a tomar hormônios femininos juntas, (mesmo não sabendo muito bem do que se tratava).
“Tive que pegar dinheiro escondido da minha mãe para comprar anticoncepcional, na época não trabalhava e tudo era tão caro, mas com 17 consegui o primeiro emprego registrada (onde a mesma trabalhou por 9 anos) que pagou essa minha transição. ”
Falando um pouco sobre sua cirurgia esclarece que não é só a operação (que acredita ser um caminho sem volta) pois nem todas as pessoas estão preparadas para esse procedimento, requer investimentos não só de capital como também de empenho sempre com acompanhamento de profissionais como: psiquiatra e psicólogos, afirma Jô.“Se não foi fácil para mim, não vai ser fácil para ninguém. ”
VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DE CRIANÇA TRANS? QUAL SEU PENSAMENTO SOBRE A TRANSIÇÃO INFANTIL?
"Já ouvi falar e acho importante elas terem apoio dos pais, eles acham bonito quando e na casa dos outros, quando acontece em suas casas querem expulsar, graças a DEUS nunca aconteceu comigo, sai de casa para viver minha vida. É bonito a forma dos pais dessas crianças aceitarem mostrando o amor acima de tudo. ”
Informa também que sofre com efeitos colaterais de tanto tempo tomando hormônios sem prescrição médica, hoje Jocasta enfrenta problemas na massa cefálica no cérebro, porém não se arrepende.
EM RELAÇÃO A SAÚDE, COMO É A REDE SUS PARA AS PESSOAS TRANS?
“Ela e boa tende a melhorar, o SUS depende muito da sorte sempre falo para amigos do meio LGBT’s o médico está lá, é você quem tem que ir atrás”.
Jô finaliza sobre o assunto da saúde falando que as pessoas as vezes tem vergonha de procurar a rede pública de saúde por medo. E que não deveriam sentir vergonha disso, pois tem ambulatórios que atendem pessoas trans que querem passar pela cirurgia em vários bairros.
EM RELAÇÃO AO TRABALHO VOCÊ ENCARA OU ENCAROU ALGUMA DIFICULDADE?
‘’Antes de conseguir a mudança de nome, eu enfrentei o preconceito sim. Por que as pessoas na hora da contratação olhavam no documento e estava João, olhavam para mim e viam a Jocasta. Chegaram a pedir para eu cortar meu cabelo no estilo ‘masculino’. Não abriria mão do meu jeito de ser por um emprego onde não saberia o amanhã. ”
COMO FOI SUA FORMAÇÃO PROFISSIONAL?
“Não foi fácil também tive professor e até aluno que não me aceitavam na sala, eu ia de unha pintada e sempre vi do jeito que me olhavam, teve um momento em que eu até iniciei uma conversa onde deixei claro que pagava a mensalidade como qualquer outro ali e não queria ser motivo de gozação. Porem eu tinha apoio de outros alunos, quando chegou no período da formatura eu queria ir como mulher, o professor que comandava a confraternização não me deixou ir como mulher, resultou que a turma toda se recusou a fazer a festa de formatura. ’’
O QUE O BRASIL PRECISA MELHORAR PARA A COMUNIDADE LGBT’S?
“Precisa melhorar no respeito, até mesmo entre pessoas da própria comunidade LGBT’s’’.
Encerrando essa parte da entrevista, inicia-se um momento ping-pong na entrevista onde o Entrevistador faz uma pergunta ou fala uma palavra e a entrevistada fala o que pensa sobre o assunto.
PRECONCEITO?
“Já enfrentei sim, nunca fui violentada, verbalmente sim, mas sempre tirei de letra; minha mãe que sempre me falava que tinha medo da sociedade e até hoje demonstra preocupação. Nunca revidei situações prefiro ignorar não é sempre, não sou santinha até xingo, nunca briguei prefiro conversa e nunca fui agredida. ”
PAIS QUE EXPULSAM FILHOS DE CASA?
“Acho ignorância! Um pai não pode expulsar um filho de casa devido a ele ser homossexual, tem até lei para proteger o gay nessa situação, já ate discuti com mãe de amigo meu que queria expulsa-lo. Expulsão é uma situação muito complexa, é falta de conhecimento. ”
Hoje Jocasta tem casa própria onde a mesma já abrigou varias pessoas dentre elas gays e até mulher cis heterossexual, afirmando que nunca gostou de estar sozinha.
FAMÍLIA?
‘’A base de tudo! ’’
AMOR?
Complexidade, já amei e não quero amar mais só quero companheirismo.
RELACIONAMENTO?
“Sinto saudades da vida em casal, até estou conhecendo alguém porem o mesmo não sabe da minha transição, e por mim nem vai saber. Afinal, sou Mulher”
HOMOFOBIA?
“Existe, infelizmente muito difícil de acabar. ”
POLITICA?
“Já me disseram que eu tenho o perfil, mas eu nunca me candidataria há nenhum cargo político. ”
AMIZADE?
“Tem que selecionar, nem todas as pessoas são suas amigas. ”
TRANSEXUAL NA NOVELA?
“Interessante, porque desperta curiosidade nas pessoas e um tema bonito que esclarece a mente do ser humano, querendo ou não a classe trans vai aumentar cada vez mais.
SONHO NÃO REALIZADO?
“Ter um companheiro, já tive, mas quero voltar a ter alguém porque não nasci para ficar sozinha e dar continuidade para minha vida normal, como trabalhar, voltar a estudar ter uma vida digna como eu sempre tive. ”
SONHO REALIZADO?
“Minha cirurgia! O momento mais gostoso foi receber minha mãe e minha irmã no quarto do hospital, como uma mulher. ”
E essa foi a nossa entrevista com Jocasta Barros!
**A entrevistada solicitou que não exibissimos a sua imagem, por enfrentar preconceito em relação a ser mulher trans**
Entrevista: Fernando Welington
Texto: Jefferson Gomes e Fernando Welington.
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